Fundador da Reag é suspeito de lavagem de dinheiro no inquérito de respiradores de Rui Costa

11 de junho de 2026 às 19:10

A Polícia Federal (PF) e a Controladoria-Geral da União (CGU) suspeitam que o empresário João Carlos Mansur, dono da Reag Investimentos, e dois fundos da gestora lavaram R$ 5 milhões no esquema de desvios na compra de respiradores pelo Consórcio do Nordeste, formado por governos estaduais.

A compra, no valor de R$ 48 milhões, foi feita em meio à pandemia, pelo então governador da Bahia, Rui Costa (PT), hoje ministro do governo Lula, que presidiu o consórcio. Mansur é citado como suspeito de lavagem para um lobista que atuou pela empresa contratada. Procurados, o ministro e o empresário não se manifestaram.

A Procuradoria-Geral da República (PGR) pediu que a investigação do caso retorne ao Supremo Tribunal Federal (STF) por suspeitas de que a ocultação dos recursos desviados continuou em curso enquanto Rui Costa era ministro da Casa Civil do governo Lula, o que indicaria foro privilegiado no STF.

Empresário é alvo da PF no caso Master

Mansur, economista de formação, teve ascensão meteórica na Faria Lima. Em poucos anos, sua gestora Reag chegou à marca de R$ 300 bilhões geridos em fundos de investimentos.

No último ano, a empresa foi liquidada pelo Banco Central (BC) e Mansur, alvo de operações da PF. Uma delas foi a Carbono Oculto, que investiga sonegação bilionária no setor de combustíveis, e a outra foi a Compliance Zero, que apura fraudes no Banco Master.

Documentos obtidos pelo jornal O Estado de São Paulo mostram que ele é investigado também pelos desvios na venda de respiradores com uso de verbas públicas federais e citado no inquérito da Polícia Federal.

Os respiradores foram vendidos, em 2020, em meio à pandemia da covid-19, ao consórcio dos governadores do Nordeste, presidido por Costa, então chefe do Executivo da Bahia.

Venda de respiradores envolveu empresa de maconha e lobistas

A empresa Hempcare, contratada por R$ 48 milhões, só tinha experiência na área de medicamentos à base de maconha. Ela nunca entregou os equipamentos e o dinheiro até hoje não foi recuperado.

O esquema teve a atuação de lobistas, que intermediaram contatos entre os donos da empresa fornecedora dos respiradores e integrantes do governo da Bahia. A PF apura se houve pagamentos de propina a agentes públicos em troca do negócio.

Segundo a investigação da PF e uma auditoria da CGU, Mansur teria usado uma empresa e fundos de investimentos para ocultar o destino do dinheiro pago a um desses atravessadores do contrato.

Seu nome é Fernando Galante, empresário de São Paulo que teria atuado como “facilitador político” do esquema. Ele recebeu R$ 9,4 milhões da Hempcare, a empresa contratada pelo consórcio do Nordeste. Galante não foi localizado pela reportagem.

Para receber a quantia, usou sua empresa, a Gespar. A Polícia Federal identificou que ela teria repassado R$ 5 milhões à Copaca, uma das empresas de Mansur.

Investigações apontam lavagem de dinheiro em empresa de fachada e fundos

No mesmo dia, 22 de abril de 2020, a empresa de Mansur repassou a quantia a um fundo da Reag. Esse fundo devolveu os R$ 5 milhões à empresa cinco dias depois. No dia seguinte, o dinheiro foi parar em outro fundo.

Segundo a CGU, “há fortes indícios de que a Copaca tenha sido utilizada como empresa de fachada, funcionando como veículo intermediário para esvaziamento do patrimônio da Gespar, empresa ligada ao operador Fernando Galante, com o fim de ocultar a origem e o destino do dinheiro público desviado”.

Na investigação da PF, trecho da decisão que ordenou busca e apreensão na Copaca citou os indícios de irregularidades envolvendo Mansur na gestão da empresa. “São veementes os indícios de ilicitude ao analisar que R$ 5 milhões que foram originalmente destinados à compra de ventiladores pulmonares passaram pelas contas de empresas destinadas à administração de bens (Gespar), ao ramo imobiliário (Copaca) e a bancos e fundos de investimento (Grupo Reag e Marsh Fundo de Investimento), mas nunca chegaram a uma empresa sequer que efetivamente trabalhasse com a compra de ventiladores pulmonares”, diz a decisão.

Contrato de Mansur com lobista cita ‘know how e relacionamentos’

O jornal O Estado de São Paulo obteve de fontes ligadas ao caso um contrato de gaveta firmado por Mansur e Galante. O documento prevê que ambas atuariam juntas na venda de testes de covid-19.

No documento, consta que a a Copaca e a Reag “possuem relacionamentos com laboratórios e hospitais interessados na aquisição dos Testes Laboratoriais e know how na estruturação de operações financeiras”.

Mansur era sócio da Copaca por meio de outra empresa, a Lumabe. Esta companhia tem conexões com o caso Master. Foi com dividendos de R$ 193 milhões da Lumabe que o empresário capitalizou um fundo de investimentos administrado pelo banco de Daniel Vorcaro para comprar ações do BRB, em abril de 2025. A peça da auditoria do BRB foi revelada pelo portal Metrópoles.

PGR quer inquérito no STF

Na última semana, a Procuradoria-Geral da República pediu para que o caso fosse enviado ao STF por haver suspeitas sobre o ministro. A PGR diz que o cenário é tão grave que, até hoje, os bloqueios judiciais determinados pela investigação conseguiram obter menos de 3,5% do total desviado.

“A ocultação de valores em apuração reúne esses elementos. É crime permanente que, segundo os indícios coligidos, teve início no contexto da contratação assinada por Rui Costa como Governador e se manteve, sem solução de continuidade, durante o período em que ele ocupou o cargo de Ministro de Estado”, escreveu a PGR.

A manifestação da PGR também ressalta o papel da Copaca e da Reag nos desvios dos recursos dos respiradores. “A dissipação seguiu por circuitos de ida e volta. Da quantia destinada à GESPAR, R$ 5.000.000,00 circularam entre a COPACA e fundos do grupo REAG, em transferências sucessivas concluídas em abril de 2020″, escreveu a PGR.

Por: Políticalivre


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